O tempo real de maquinação de um molde vs. o que foi orçamentado
A indústria de moldes compete em prazo e preço, mas poucas comparam o tempo real de maquinação com o orçamentado. Porque é que esse desvio decide a margem.
A indústria de moldes portuguesa é a terceira maior produtora europeia de moldes para injeção de plástico e compete no mundo pela relação entre qualidade, preço e prazo de entrega. É um negócio de projetos: cada molde é único, orçamentado antes de ser feito, com uma estimativa de horas de maquinação, de bancada, de ensaio. E é aqui que está uma das lacunas mais caras do setor: muitas empresas orçamentam com uma estimativa de horas e no fim não comparam com as horas reais. O molde entrega-se, factura-se, e ninguém sabe ao certo se deu a margem prevista.
Num negócio onde o preço se fixa à cabeça e o prazo é um argumento de venda, não saber quanto tempo cada molde demorou de facto é navegar sem instrumentos. Os moldes que derrapam em horas escondem-se atrás dos que correm bem, e a empresa continua a orçamentar com base em estimativas que nunca foram confrontadas com a realidade.
Orçamento e realidade divergem sempre
Orçamentar um molde é prever: tantas horas de maquinação, tantas de bancada, tantas de ensaio e afinação. A realidade é o que aconteceu: a maquinação que precisou de mais passagens, a afinação que se arrastou, o ensaio que revelou um problema e obrigou a retrabalho, a alteração que o cliente pediu a meio.
Entre a previsão e a realidade há sempre desvio. A questão é o tamanho e a direção desse desvio, e se ele é conhecido. Uma empresa que só olha para o orçamento assume que ele se cumpre. Uma empresa que mede as horas reais por molde sabe onde não se cumpre, e porquê.
Onde o tempo real foge à estimativa
Há fases que tendem a derrapar de forma sistemática, e todas comem margem:
- A afinação e o ensaio. É onde os problemas aparecem, e onde as horas se acumulam sem estarem bem previstas. Um molde que não corre bem à primeira injeção pode consumir muitas horas de acerto.
- O retrabalho. Um erro de maquinação ou de conceção que obriga a refazer é tempo que o orçamento não previu.
- As alterações do cliente. Mudanças a meio do projeto que não foram reorçamentadas comem horas por conta da empresa.
- A maquinação de geometrias difíceis. Zonas complexas que exigem mais passagens, ferramentas especiais ou velocidades baixas consomem mais tempo do que a estimativa média assume.
Somadas, estas horas podem transformar um molde aparentemente rentável num molde que deu prejuízo. E sem comparar real com orçamentado, essa transformação é invisível.
Porque é que a média esconde os moldes que perdem
A defesa habitual é: “no conjunto, a empresa tem margem”. Pode ter, e ainda assim estar a perder dinheiro em vários moldes que os outros compensam. A margem média da empresa é uma média que apaga a diferença entre o molde que rendeu e o que derrapou.
Só comparar horas reais com orçamentadas, molde a molde, revela essa distribuição. E o que essa visão costuma mostrar é útil: um padrão nos moldes que derrapam. Muitas vezes é um tipo de molde, uma gama de complexidade, um tipo de cliente, ou uma fase específica (quase sempre a afinação) que consome sistematicamente mais do que o previsto. Saber qual é permite orçamentar melhor os próximos e decidir que trabalho aceitar.
Os dados já existem, falta compará-los
Registar horas reais por molde não exige um sistema novo de raiz. A maior parte das empresas já regista horas, de uma forma ou de outra: apontamentos de bancada, registos das máquinas CNC, folhas de obra. O que falta é imputar essas horas ao molde certo, por fase, e compará-las com o orçamento. Os dados estão lá, dispersos; o trabalho é juntá-los por projeto.
E há uma fonte rica muitas vezes subaproveitada: as próprias máquinas CNC registam tempos de trabalho que podem ser ligados ao molde em produção. É a lógica de tudo o que fazemos: usar os dados que os equipamentos e os processos já geram, organizando-os para responder a uma pergunta que hoje fica sem resposta.
Por onde começar
- Escolha alguns moldes recentes. Não tente o histórico todo. Comece por um punhado de moldes já entregues, de tipos diferentes.
- Junte as horas reais por fase. Maquinação, bancada, ensaio, afinação. Use os apontamentos, os registos CNC e as folhas de obra que já existem.
- Compare com o orçamento. A diferença entre horas previstas e reais, por fase, é a informação que faltava. Onde é grande, há uma causa a investigar.
- Procure o padrão nos que derrapam. Os moldes que ultrapassam a estimativa costumam ter algo em comum: um tipo, uma complexidade, uma fase. Esse padrão é ouro para orçamentar.
- Realimente o orçamento. Use o que aprende com os desvios para orçamentar os próximos moldes com estimativas ancoradas na realidade, não na esperança.
Perguntas frequentes
Porque é que comparar horas reais com orçamentadas importa na indústria de moldes?
Porque o negócio de moldes é de projetos orçamentados à cabeça, com estimativas de horas, e compete em preço e prazo. Se as horas reais não forem comparadas com as orçamentadas, os moldes que derrapam escondem-se atrás dos que correm bem, e a empresa continua a orçamentar com estimativas nunca confrontadas com a realidade. É assim que se perde margem sem saber.
Onde é que o tempo de um molde costuma derrapar?
Sobretudo na afinação e no ensaio, onde os problemas aparecem e as horas se acumulam sem estarem bem previstas. Também no retrabalho por erros, nas alterações de cliente não reorçamentadas, e na maquinação de geometrias difíceis. Estas horas raramente estão na estimativa média e podem transformar um molde aparentemente rentável num que dá prejuízo.
Preciso de um sistema novo para medir as horas reais?
Não. A maioria das empresas já regista horas em apontamentos de bancada, registos das máquinas CNC e folhas de obra. O que falta é imputar essas horas ao molde certo, por fase, e compará-las com o orçamento. Os dados estão lá, dispersos; o trabalho é juntá-los por projeto, não instalar um sistema de raiz.
Como é que isto ajuda a orçamentar melhor?
Ao revelar o padrão nos moldes que derrapam. Quando se compara real com orçamentado, costuma aparecer um tipo de molde, uma gama de complexidade ou uma fase que consome sistematicamente mais do que o previsto. Conhecer esse padrão permite orçamentar os próximos moldes com estimativas ancoradas na realidade e decidir com mais critério que trabalho aceitar.
Se orçamenta moldes com estimativas que nunca compara com a realidade, uma conversa de 30 minutos chega para perceber como medir as horas reais com os dados que já tem. Veja também como trabalhamos.
Fontes
- Indústria de moldes portuguesa: novos desafios — InterMETAL.
- Cluster vidro, moldes, plásticos — Câmara Municipal da Marinha Grande.